quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Exercício e TDAH: entrevista com o especialista Dr. John J. Ratey

Autora: Pippa Wysong

Nota do Editor:

O transtorno do déficit de atenção (TDA), também denominado transtorno do déficit de atenção/hiperatividade, costuma ser cercado de controvérsias em termos do uso de medicamentos, sendo que muitos consideram um quadro tratado em demasia. O Dr. John J. Ratey preconiza que os exercícios devem ser incluídos no esquema terapêutico, e que os exercícios podem reduzir ou mesmo eliminar a necessidade de medicação. Professor Associado de Psiquiatria Clínica na Faculdade de Medicina Harvard, Cambridge, Massachusetts, o Dr. Ratey é autor do livro Spark:  The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain, assim como de vários livros relacionados na literatura popular. Ele também foi consultor sobre estudos clínicos em relação a exercícios e doenças psiquiátricas.


Medscape: O senhor pode começar com algumas informações sobre o TDA e como os exercícios afetam o cérebro?

Dr. Ratey: Primeiro, o TDA afeta pelo menos 8% a 10% das crianças, e quase tantos adultos. É hoje considerado um transtorno biológico do cérebro e pode ter componentes genéticos.

Existem duas maneiras básicas de pensar o TDA em relação ao exercício: Uma é sobre os neurotransmissores noradrenalina e dopamina, acredita-se que ambos sejam condutores do sistema de atenção. O exercício aumenta a concentração de ambos neurotransmissores, dopamina e norepinefrina, bem como de outros produtos químicos do cérebro.

Eu sempre disse que uma dose de exercício é como tomar um pouco de metilfenidato (Ritalina®) ou anfetaminas/dextroanfetamina (Adderall®); é semelhante a tomar um estimulante.

Em segundo lugar, ao longo do tempo, o exercício ajuda a construir o mecanismo para aumentar a quantidade de neurotransmissores no cérebro, bem como seus receptores pós-sinápticos. O exercício regular acaba promovendo o crescimento do sistema. Quanto mais você estiver em forma, melhor o sistema funciona.

Medscape: De onde vêm esses resultados?

Dr. Ratey: O exercício físico tem sido um dos temas em voga nos últimos 15 anos na neurociência. Os estudos iniciais sobre exercício e dopamina foram publicados nas décadas de 60 e 70. Eu gostaria de acrescentar que o exercício ativa o córtex frontal em todas as faixas etárias. Muitos dos sintomas do TDA estão relacionados às funções executoras do cérebro, que estão localizados no córtex frontal.

Medscape: Existem estudos observando especificamente o exercício e o TDA?

Dr. Ratey: Existem inúmeros estudos sobre a dopamina, a norepinefrina e o exercício, mas em termos do TDA, os estudos clínicos com o exercício estão apenas começando.

Medscape: O que despertou o seu interesse nessa área?

Dr. Ratey: Eu tive vários pacientes maratonistas que pararam de fazer maratonas em decorrência de lesões sofridas. Esses pacientes particularmente, primeiro ficavam deprimidos, e então alguns apresentaram sintomas de TDA pela primeira vez em suas vidas. Isso foi no início dos anos 80, antes de nós realmente pensarmos muito sobre o TDA - em crianças ou em adultos.

Medscape: O TDA não é algo que só pode se materializar mais tarde na vida, não é verdade?

Dr. Ratey: Não. No caso dos corredores, eles teriam TDA antes, mas seus esquemas de exercício serviram para mantê-lo sob controle. O que tem sido observado nos últimos 30 anos é que as pessoas atléticas que faziam atividades desportivas regulares na escola foram para a faculdade, mas parou de se exercitar e, em seguida, observaram os primeiros sinais importantes do TDA. Eles podem ter tido algum sintoma de TDA no passado, mas na faculdade, eles apareceram com intensidade.

Medscape: Como outras pessoas da psiquiatria reagem à ideia de prescrição de exercícios?

Dr. Ratey: As pessoas estão apenas começando a prestar atenção nisso. Foi somente há dois anos que o presidente da Associação Médica Americana (AMA), em seu discurso inaugural, disse que "exercício é remédio". Ele disse que todo médico, independentemente de sua especialidade, deve perguntar a cada paciente em todas as consultas sobre o seu esquema de exercícios e incentivá-los a buscar fazê-lo.

A neurologia está prestando mais atenção ao exercício, com conferências dedicadas especificamente ao exercício e doença de Parkinson, por exemplo. Se o exercício pode ajudar a proteger contra alguns dos sintomas na doença de Parkinson, então ele também deve afetar o TDA, porque essas doenças têm características superpostas.

Medscape: O exercício está começando a ganhar respeito como opção terapêutica?

Dr. Ratey: Sim. Historicamente, isso iniciou nos estudos de cardiologia. A seguir, os psicólogos observaram que as pessoas em reabilitação cardíaca apresentavam melhora tanto emocional quanto física. Eles estudaram depressão, ansiedade, hostilidade, agressão e estresse em pessoas que começaram um esquema de exercícios para a proteção cardiovascular ou cura. Os pesquisadores da Universidade Duke foram os líderes em medir os efeitos do exercício no lado emocional. O exercício é estudado agora em praticamente todas as especialidades.

Medscape: Com que frequência os pacientes com TDA devem se exercitar, e com que intensidade?

Dr. Ratey: Há uma variedade de programas e esquemas de exercícios. Algumas escolas têm feito pausas para exercício a cada hora ou duas, mas outros esquemas também podem funcionar. Alguém com TDA poderia se beneficiar de uma pausa de 10-15 minutos a cada hora para se exercitar ou algo assim. Isso ajuda a todos, não apenas os pacientes com TDA.

Medscape: O exercício tem que ser feito várias vezes ao dia?

Dr. Ratey: Sim, mas ele não precisa ser durante muito tempo a cada vez. Apenas o suficiente para aumentar a frequência cardíaca por pelo menos alguns minutos. Os benefícios persistem durante algum tempo após o exercício. Sabemos que há melhora com baixos níveis de exercício físico, como caminhadas de 20 minutos. Interessante notar que um número de pessoas em diversas empresas, como Merrill Lynch e Google, agora têm mesas de pé.

Medscape: O Dr. James Levine, pesquisador da Clínica Mayo, montou sua mesa em uma esteira para que ele possa andar enquanto trabalha. Andar enquanto trabalha ajudaria o TDA?

Dr. Ratey: Essa é a mesa-esteira e seria excelente para adultos e crianças. Certamente tem o potencial de manter o TDA sob controle.

Medscape: Para os leitores Medscape, qual conselho os médicos devem dar aos pacientes?

Dr. Ratey: Eles devem aconselhar os pacientes a fazer exercícios diários. Seja qual for o tratamento médico iniciado, o exercício deve ser incluído também. Deve ser diário. A prática de exercícios aeróbicos e de resistência é boa. O treinamento do equilíbrio é importante nos pacientes com TDA e pode ser realizado com ioga, tai chi, ou exercícios de equilíbrio. O exercício deve tornar-se um estilo de vida, um hábito.

Medscape: A prática regular de exercícios afetaria a necessidade de medicação necessidades dos pacientes com TDA?

Dr. Ratey: Costuma afetar. Alguns dos pacientes descritos no meu livro retiraram inteiramente os medicamentos. Para as pessoas com dificuldade de encontrar o esquema correto de medicação, o exercício pode realmente ajudar. Os exercícios escolhidos devem ser divertidos para que as pessoas queiram fazê-los.

Medscape: O exercício tornar-se uma medicação regular?

Dr. Ratey: Sim. No entanto, isto não é para todos. Existe um espectro de gravidade no TDA. Há muitos maratonistas que necessitam ainda de medicamentos, mas talvez eles precisem menos do que precisariam se não corressem. Muitos superatletas têm TDA.

Um bom exemplo atual é o nadador olímpico Michael Phelps, que foi diagnosticado na idade de 9 anos e começou a tomar medicamentos. Ele descobriu que era impossível ficar parado na escola por causa do TDA. Então ele começou a nadar. Quando ele chegou a 3 horas de exercício diário, ele não precisou mais de medicação.

Muitas destas crianças desenvolvem a "síndrome do desamparo aprendido". Elas falharam tanto no passado, que agora esperam falhar. Ficam deprimidas, usam drogas ou jogam videogames o dia inteiro. O exercício impede as pessoas de entrar nisso. Estudos com animais mostraram que o exercício faz com que seja mais difícil de desenvolver o desamparo aprendido.

Medscape: Não há uma certa dose de reforço positivo? Se você estiver correndo do ponto A para o ponto B, quando você chegar ao ponto B, você chegou lá. Você conseguiu algo.

Dr. Ratey: Sim, os efeitos sobre a autoeficácia são enormes. Embora o exercício ajude a equilibrar a química cerebral, há efeitos acessórios úteis, tais como a autoeficácia.

Medscape: Soa como se os pacientes com TDA não podem falhar ao iniciar o hábito do exercício.

Dr. Ratey: Eles, e todo mundo, embora a maioria dos pacientes com TDA ainda precise tomar algum medicamento. As pessoas podem saber mais do meu site www.johnratey.com.

Medscape: Muito obrigado por seu tempo.

Informações sobre os autores: Pippa Wysong, escritora freelancer. Entrevistado: Dr. John J. Ratey, professor Associado de Psiquiatria Clínica, Faculdade de Medicina Harvard, Cambridge, Massachusetts.

Fonte: http://www.medcenter.com/Medscape/content.aspx?id=25148

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por seu comentário!